23.07.25

Há algumas travessias que são como desertos, e precisamos atravessar sós, apesar da rede, do apoio, da família, amigos, das pessoas que podemos contar ao redor. Tem caminhada que é só nossa. E ninguém pode fazer por nós. Esta foi uma delas.

No último sábado estive reunida com duas amigas que muito admiro, daquelas que temos sorte de poder conviver e manter por perto. Onde podemos celebrar umas às outras, livremente. Que rico, que bonito. Eis que uma delas me pergunta, “Amiga, conta pra gente, como é a vista do outro lado? Da última vez que nos vimos pessoalmente, você tava encarando o penhasco, imaginando.”

Eu estava mesmo encarando um penhasco. 

Lembro de, metaforicamente, utilizar bastante essa expressão, pois sabia que daquele penhasco eu não daria um salto e bateria as asas, voando. Eu o encarava de frente. Tropeçava nas minhas próprias pernas, me via rolando até o fundo, batendo no chão, estrupiada, depois me erguendo, fazendo o caminho à pé, para então aprender que conseguiria andar, me apoiar em mim, seguir adiante, e então escalar de volta, lá do outro lado.

Nos momentos de mais angústia e dúvida (e eles foram muitos, só eu sei o que se passou no meu corpo e no meu coração), onde eu pensava que não iria suportar o confronto – comigo mesma, com aquilo que eu acreditei e me comprometi até ali, com as pessoas que amo –, lembro de me perguntar, intrigada, como estaria e quem encontraria do outro lado, dali uns meses ou 1 ano depois.

Há algumas travessias que são como desertos, e precisamos atravessar sós, apesar da rede, do apoio, da família, amigos, das pessoas que podemos contar ao redor. Tem caminhada que é só nossa. E ninguém pode fazer por nós. Esta foi uma delas.

Existe um luto específico que reside em abrir mão de quem a gente pensa que deveria ter sido para aceitar quem a gente é. Despir-se do “eu idealizado”, de quem achávamos que gostaríamos de ser, para abraçar quem existe, de fato, dentro de nós. Aqui na vida concreta, de maneira escancarada. Falo sobre parar de insistir em caber nos planos ensinados e aprendidos, nas formas alheias — incluindo aquela de casa, apresentada pelos nossos pais. Tem momentos que tudo grita para que a gente pare e olhe. Pare e se olhe. Este foi outro deles.

Há um luto imenso em se desfazer de sonhos e desejos antigos que imaginávamos que eram tão nossos, mas que já não nos vestem mais. Admitir isso dói. Tem sabor de fracasso. É desconcertante olhar para sonhos antigos, que por vezes confundimos com a própria identidade, que alimentamos por tanto tempo, e simplesmente soltá-los das nossas mãos para dar espaço ao novo… um novo que vem travestido de medo, insegurança, dúvida, tudo isso pelo simples fato de ser desconhecido e sem garantias.

Mas vida é risco. Não há mesmo certezas. Como prosseguir?

Quando cruzei a ponte da transição de carreira e deixei para trás o concurso público, morri de medo de me arrepender anos depois. Eu morria de medo de aquele caminho para o qual estava me jogando não desse em “lugar algum”. Morria de medo de me estraçalhar em mil pedaços e nunca mais me reencontrar. E se estivesse assumindo um grande erro? Se estivesse deixando o “certo, seguro, conhecido e escolhido” para trás para viver algo que poderia nem dar certo? Será que valia à pena lidar com a frustração da minha família? Abrir mão da segurança e da estabilidade de uma carreira jurídica “iria matar a minha mãe”, eu pensava. Foi duríssimo, afinal era o maior sonho dela para mim, e eu havia dedicado uma vida àquilo. Estava quase lá.

4 anos depois, vivi tudo de novo. Mas pior. Nos últimos 8 meses atravessei todas essas perguntas, dúvidas e angústias mais uma vez. De um tamanho e intensidade diferentes, mais amplas, mais profundas, mais intensas. Eu tinha certeza de que seria “apedrejada”, incompreendida, criticada. Mas eu também já não era a mesma, afinal já havia atravessado uma vez. Estava mais madura, mais consciente. Dessa vez, mais apropriada e em posse de um lugar de mim.

 

Eu quis dizer sim à vida, com um apesar disso. Preciso dizer que antes de chegar do outro lado, antes de melhorar, fica pior, muito pior. Talvez o principal aprendizado tenha sido entender que não haveria caminho despido de sofrimento: doía para todos os lados. Para ambas as escolhas, qualquer uma delas. Nesses momentos você se questiona seriamente o que está fazendo com a própria vida. Pode ser brutal

 

Depois da dor, eu encontrei… amor. Em diversos lugares, em diversas pessoas. Em forma de amizade, de sorriso, de abraço, de colo, bilhete escrito à mão, Facetime, Ifood entregue na porta, convite, presença, taças de vinho, playlist no Spotify, fotografias, olhares gentis. Especialmente, encontrei amor em mim mesma.

Dentro do avião, indo de Paris a Copenhague, na minha última viagem, comecei a escrever e tive um daqueles insights que nos mobilizam: percebi que a invisibilidade da qual eu me queixava e sentia durante esse período vinha do fato de que eu mesma não me enxergava, não me testemunhava, não me celebrava, aceitava e compreendia. Venho aprendendo a fazer tudo isso.

“Sem profundidade, não há altura. (…) Sem negatividade, não há intensidade possível.” (Byung-Chul Han)

Então ouso dizer que do outro lado eu me encontrei. Dei de cara comigo. Me vi de frente, despida. Com toda a intensidade possível. Fazia tempo que não me sentia tão… eu. Com todos os desejos, ímpetos e alegrias, e também todas as faltas, frustrações e limites.

Os pedaços estraçalhados se reencontraram. Eles tem feito o caminho de volta.

Venho aprendendo a lidar com “os vazios embaixo dos pés, tão necessários para que a gente voe”, citando a tão querida Naira Oliveira, que gentilmente me escreveu essa mensagem falando que coragem era sobre encarar esses vazios, e me enxergou de maneira tão bonita neste momento delicado. Afinal abraçar o vazio, a dúvida e o risco é mesmo necessário para que a gente voe.

Encontrei, ainda, um tanto de gente massa, que se colocou ao meu lado, respeitando o meu espaço, mas acompanhando a minha travessia. Outras tantas ficaram pelo caminho. O que não fazia sentido perdeu lugar. Apesar de individual e solitária, ela não é feita sozinha. Os afetos nos reestruturam e constroem. Obrigada a cada pessoa que me olhou nos olhos, com confiança, e me ajudou a acreditar que eu conseguiria.

Do outro lado do penhasco a vista é ampla, bonita, e possui mais perguntas que respostas. Mais dúvidas que certezas. É neste lugar que me encontro. Um lugar cheio de questionamentos, mas um lugar de mim.

Senti de escrever e compartilhar essa resposta, porque caminhos são individuais, mas jamais únicos. Não sei o que você talvez esteja atravessando. Qual penhasco ou deserto esteja olhando de frente. Desejo que acredite em si mesma o suficiente, na sua capacidade de andar com as próprias pernas. Ir adiante.

Coragem se conhece andando. Acredite. É, sim, possível atravessar.

Talvez você não precise pensar na vista, nas possibilidades, o que ou quem encontrará. Por enquanto, saiba de uma coisa: há outro lado onde chegar.

Até a próxima,
Beatriz.