Não tem caminho nem trajetória mais significativa do que aquela que nos devolve, pouco a pouco, para nós mesmas. A vida que vale a pena ser vivida, pra mim, só é possível desta maneira:
Final de ano é pra mim sobre expressão e ritualização de afetos, de sentidos, e de memórias. Neste ano estou completamente desinteressada em contabilizar conquistas, livros lidos, treinos realizados, contratos, viagens ou qualquer coisa que envolva metrificar o que foi feito.
Quero saber o que senti, o que me afetou, e o que vivi. Falo de corpo, de riso, de coração, de alma. Tenho me importado mais em pensar nas coisas que ficaram, os velhos comportamentos que me estruturam… as novas manias?
Especialmente, tenho refletido a respeito de quem esteve por perto, sobretudo sobre quem chegou e quem permaneceu comigo. Quais conexões realizei, como estive presente e disponível para aqueles que amo (inclusive eu mesma), em quais lugares e com quais pessoas senti paz, contentamento, vivacidade? Com quem tive a chance de compartilhar as minhas próprias versões preferidas? Em quais espaços (e com quais pessoas) estive à vontade o suficiente para isso? Quais foram os sonhos que ganharam forma e tamanho? O que resgatei e o que abandonei…?
Enquanto escrevo, me emociono ao pensar em 2024 e em tudo o que foi descortinado para chegar neste dezembro. Quanta coragem, generosidade e autorrespeito eu precisei carregar dentro de mim, e como mudou o meu olhar e a minha relação comigo.
Sempre dizia que gostaria de ser a primeira pessoa que comparece por si mesma, que se pega na mão, no colo, se ampara, se abraça. Aquela que não se abandona. Sempre quis me enxergar como os outros me enxergam. Ah…, por anos, como eu tentei. É que sempre pareceram ter um ponto de vista (sobre mim) mais gentil do que aquele que eu carregava. Termino o ano com a serena convicção de que consegui.
Que pede pra parte boa dar conta da ruim porque sabe que uma e outra não se separa, e ainda assim escolhe atravessar a dor para ser capaz de sentir arrepios, pois estar viva implica sentir tudo, e enxergar beleza nisso.
Eu devia ter uns 6 anos. Era fim de ano na escola, e a minha turma ficou responsável pela apresentação musical que seria interpretada ao vivo. Eu fui uma das crianças que esteve no microfone solo para cantar, e mesmo sem saber a profundidade que aquelas palavras carregavam, vibrei a plenos pulmões que
“Eu fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei (eu sei) que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: É bonita, é bonita e é bonita.” (Gonzaguinha)
Tão pequena fui apresentada a Gonzaguinha e assimilei que a vida é bonita, mesmo que possa ser melhor (e será!). Não tinha dimensão o quanto me marcaria aquele momento, e quantas vezes voltaria naquelas palavras, mas não é assim que acontece?
A gente nunca sabe quando, mas precisa ir lá viver o desconhecido.
Presente, de peito aberto pro improvável surpreender, permitindo não ter a vergonha de ser feliz e cantar essa beleza toda. Gonzaguinha me levou a Zack Magiezi, que me levou a Brené Brown e a tal da vulnerabilidade (sempre ela).
É que vulnerável mesmo não é somente admitir fraquezas, dificuldades, inseguranças, incertezas, mas se permitir sentir tudo o que envolve “não ter a vergonha de ser feliz”, assim, de peito cheio, tão cheio que transborda. Com os dois pés na arena, mesmo quando com a cara no chão. Falo sobre ser pega no flagra acreditando em si. Ser vista sonhando… e decidindo ficar com a pureza da resposta das crianças – que não complicam tudo, tanto, como a gente tem mania de fazer.
Já que a vida não tem roteiro, nem manual, e não comporta garantias nem certezas, o que desejo para cada uma (e um) que me lê é que se atreva a dançar pela vida com o peito cheio, alegria nos pés, uma rede onde se apoiar, e a busca incessante por um horizonte amplo, que não se encolhe para te enquadrar, nem insiste em te fazer caber.
2024 não foi um ano fácil, mas foi tão tão cheio de vida. Da vida bonita como é. Até 2025!
Com amor,
Beatriz