Enquanto vivia o período mais difícil e desestruturante da minha vida até aqui, também desbravei um dos mais bonitos. Enquanto me perguntava se seria capaz de atravessar aqueles momentos nebulosos, onde o corpo sucumbia e a mente duvidava, acessei uma profundidade e uma poesia que desconhecia.
Outubro de 2024. Esse mês foi inaugurado com um convite, que recebo junto à seguinte pergunta:“O que você acha da ideia?”, à qual respondo prontamente “Achei OUSADA, assim, em letra maiúscula”, seguido de um sim muito óbvio, daqueles que a gente dá com todo o corpo, sem pestanejar. O mês seguiu o seu curso, e eu atravessei momentos, conversas e decisões muito complexas, muito difíceis, enquanto também dava os meus primeiros passos em direção ao trabalho de fotografia e expressão imagética. Neste mesmo mês eu saí de casa. E apenas 4 dias depois disso realizei o meu primeiro trabalho de fotografia.
Junho de 2025. 8 meses depois. Na mesma semana que assino um divórcio, viajo sozinha a Paris para fazer um workshop. Eu, que não acredito em coincidências, não pude deixar de notar as sincronicidades de tudo isso. Embarco para viver dias especiais e cheios de afetos, ressignificar a minha relação com aquela cidade e construir novas memórias, mas também para estudar numa das mais reconhecidas escolas de fotografia do mundo.
Essa viagem antecede outro marco importante: a realização do tal projeto, que vai acontecer em Copenhague mais para o final do mês, e engloba tudo o que toca o meu trabalho hoje. Como se dar conta de tudo isso e não se emocionar?
Hoje é uma quarta-feira, dia 4 de junho, e enquanto escrevo, uma amiga-irmã que mora noutro estado está chegando no meu apartamento para passar uns dias. Amanhã chegarão também os meus pais. E é a primeira vez que eles vêm me visitar, desde que passei a ter um novo lar. Considerando todos os eventos que estou vivenciando, não tem como não sorrir e agradecer por um momento tão assertivo e bonito (não foi combinado, e o motivo pelo qual todos eles estão em São Paulo é alheio à mim).
Enquanto vivia o período mais difícil e desestruturante da minha vida até aqui, também desbravei um dos mais bonitos. Enquanto me perguntava se seria capaz de atravessar aqueles momentos nebulosos, onde o corpo sucumbia e a mente duvidava, acessei uma profundidade e uma poesia que desconhecia. Enquanto o trabalho ganhava novos contornos e um mundo inteiro adiante para desbravar, tudo o que eu desejava era o familiar e o conhecido. Estava emocionalmente exausta. Estava emocionalmente preenchida. Tudo ao mesmo tempo. Nunca me senti tão cercada de afeto, amparo e amor, mas nunca tão sozinha na minha dor. Nunca tão vista… e ainda tão, tão invisível. Tudo ao mesmo tempo.
Aprendi a nomear novos desejos, conheci novas camadas e lados meus. Me vi frágil e vulnerável, mas também me reconheci amável e feroz.
Tenho voltado a sonhar.
Foi numa manhã qualquer de Abril. O clima estava agradável na capital paulista. Daqueles raros dias de céu azul. Estava passando um café na minha cozinha, e enquanto esperava pacientemente o tempo do preparo, olhava para fora, para o tudo e para o nada, e algo me ocorreu como uma epifania. Sou uma das pessoas mais corajosas que conheço, pensei. Já haviam me dito isso algumas vezes, mas foi a primeira vez que eu senti. Senti de verdade. Foi a primeira vez que concordei. Ao fundo, baixinho, tocava “days go by”, a playlist que impregnou esta fase nova, e eu segui em silêncio com meus pensamentos. Neste momento os meus olhos umedeceram, a emoção se espalhou pelo corpo… e eu transbordei.
Vida é ambivalência e contradição.
No momento que você ler esse texto eu já vou ter viajado e começado a viver essa história que começou com um convite. Espero voltar em breve para compartilhá-la, com as camadas todas que merece. Até lá, vou viver tudo o que ela merece. Tudo o que eu mereço. Aliás, que bom é finalmente poder sentir e dizer: “estou de volta”.
Até a próxima,
Beatriz.